Eram tantas da noite quando parei para 'contabilizar' o amor que dedicara , então sentei e coloquei a lápis o quão profundo fora a marca dele no meu peito, as dezenas de filmes vistos e de sanduíches queimados que fazíamos ao assistir TV.
Isso tudo me fez lembrar o dia em que nos conhecemos ,na praça , com aquele sorvete derretido e a camiseta branca ,estampada com gotas de chocolate , e também como era ''sabido'' que algo fora do comum se iniciaria ali .
[ Ah como eram azuis os meus sonhos , e como foi doloroso ter que partir.]
Ele era aquela espécie de caixinha sagrada que você abre somente nas ocasiões de alegria ou tristeza extrema, ele era aquele pedaço de doce que tu guardas para comer em cima da cama quando ninguém mais vê, só pra ter o prazer de deliciar aquilo de uma forma única.O corpo dele era aquele passeio a tarde no parque , sereno , tranquilo , que em parceria com o sorriso tornava-se eloquente a ponto de transformar-me em atriz ,meretriz , ou o que fosse.
E se o cansaço diário nos abatesse demasiadamente ,encontrávamos no corpo um do outro um lar ,até o amanhecer , até o bis de nossas rotinas.
[...]
.... Uma mistura de frio , secura e nó na garganta estava compondo-me naquele momento, virei para o lado e o encontrei adormecido , o desespero egoísta de não pode-lo ter junto a mim só fora estancado quando desenhei aquelas palavras no bilhete ''Estive por aqui ,mas precisei ir , parti porque a vida é cruel , a imaginação condena , e a certeza da vida a dois não é plena.''
Fechei as janelas , fechei as portas , tranquei o peito e saí , fui porque não pertencia ao seu mundo, fui porque não era eu quem corresponderia as tuas vontades , fui porque era certo ir e até hoje vago pelo mundo estereotipada de macabéa , sem graça , sem credo , sem amor.
"E se o cansaço diário nos abatesse demasiadamente ,encontrávamos no corpo um do outro um lar ,até o amanhecer , até o bis de nossas rotinas." Que lindeza, preta! essa menina me orgulha...
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